.....Devemos deixar os preconceitos à porta do teatro. Hoje, como sempre. Especialmente com Genet. O público prepare-se para revirar o corpo nas cadeiras. Jean Genet convida-nos a uma viagem ao interior de uma certa pestilência humana, que ficamos sem saber se será ou não a nossa essência original. Ambições e ambiguidades misturam-se na relação entre homens e mulheres numa sociedade intemporalmente representada por um bordel, dito Casa de Ilusões. Genet insiste que se trata somente de uma peça sobre a Imagem e o Reflexo. Falsas imagens, falsos reflexos, iguais pecados e fantasias, egoísmo exacerbado e um assustador retrato sobre a condição humana. O vil, o podre, até mesmo o Real, confundem-se numa atmosfera de tão Kitsch. Propositadamente. Caminham as personagens nas raias de um perturbante ridículo, como se apenas num bordel se soltassem de amarras e tabus sociais. Cada vez mais fechados naquele submundo, cada qual é o que sempre sonhou ser, e a determinada altura o público compreende que, muitas vezes, está a ver representação dentro da representação, morte dentro da vida, uma dimensão noutra paralela dimensão onde acabamos intimamente mergulhados, incómodos, desconfortáveis até. Uma vez por outra, o riso solta para longe alguns medos, mas cedo voltará a sensibilidade perturbada.

.....Ferida a consciência, já não sabemos se o palco não será o reflexo da própria imagem de uma certa humanidade. Lá fora, há uma revolução. Uma selva a que cobardemente fogem personagens inventadas que acabam poderosas. Irma é a experiência amarga da vida a caminhar de rompante para o seu destino. Será tão grande o desespero e a angústia senão mesmo o ódio do Chefe da Polícia? Será que a ilusão é afinal realidade? A revolução será dentro ou fora de um bordel?...- em nós próprios, quiçá. O desafio é violento e não se pode fugir dele. Em tom elevado e à flor da pele veremos evoluir quadros de uma selvajaria controlada ou de uma calma assustadora. Mais uma vez, depara-se-nos um caleidoscópio de emoções contrastantes que fará perder completamente e desde o início qualquer noção de “bons” e de “ maus”. É a vida, tal como Genet a conhece, falsa, hipócrita, violenta, interesseira...e mesmo assim há uma réstea de espaço para um amor triste que se sabe perdido, impotente, único paupérrimo bálsamo que nos pode salvar entre o fôlego das raras gargalhadas que nos restam.

.....No fim, o público já não sabe se ele próprio não é um cliente de irma, convidado pela poderosa Madame a sair pela viela, para evitar o calor da revolução... e lembrem-se, “em vossas casas, tudo será ainda mais falso do que aqui”.

.....Há quem procure na morte a consagração definitiva, como quem desdenha o social, mas quer por ele ser idolatrado. Quem faleça na revolução. Quem se transforme em cânticos. Quem se mascare de medo. Quem morra. Quem ame. Quem sinta. Quem brinque. Quem bata. E, no fim, todos poderiam ter sentido, sofrido, amado, acobardado, morrido, cantado. Revoltamo-nos de nós próprios e voltamos a nascer. Para a morte?, para a vida nova?, ou existirá de facto uma revolução lá fora e nós somos falsos guerreiros de uma suposta inocência?

.....Pede-se um mínimo de coragem. Vai-se rir do ridículo. Se calhar, a nossa própria imagem.

 

Elenco:

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Daniela Monteiro......................... Kátia Pina e Silva............................. Paula Ribeiro

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Susana Cotta................................... Ana Luís de Sousa..................... Alexandra Gonçalves

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Laura Simas.................................Joana Simão.................................Luís Filipe Borges

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Ana Panão ..................................Marta Ramalho ...............................Tiago Antunes

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Fernando Duarte ...........................Pedro Alves ...................................Joaquim René

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Sandra Marques................................. Ruy Martins.......................... Bernardo Vilhena

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Susana Moura.............................João Ricardo Silva

 

 

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Sonoplastia: Rita Caceiro........................................Luminotecnia: Luís Melo

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Cenógrafo: Luís Pitão........................Figurinistas: Raquel Simões e Bruno Gonçalves